Aprendizado · Rituais · Roda do Ano — 2 de fevereiro de 2021
Nutrir é preciso: leite ou grãos?

E neste post vamos falar dos dois últimos festivais da Roda do Ano Celta. Últimos no sentido de que já falamos dos outros 6. Os dois festivais celtas que faltam são Imbolc e Lughnasadh, e é sobre eles que vamos falar agora.
A simbologia que esses dois sabats exploram é a necessidade de nutrir, seja pensando no início de um processo (Imbolc) ou se preparando para o final (Lughnasadh).
Imbolc - Leite e chamas
Entre os celtas, dia 2 de fevereiro marcava Imbolc, uma celebração do leite, que coincidia, grosseiramente, com o ápice do inverno. Vale a pena lembrar aqui que, embora Yule, o solstício de inverno (por volta de 21 de dezembro no hemisfério norte e 21 de junho no sul), seja o dia mais curto do ano, não é o mais frio. A água, na nossa atmosfera, armazena calor e "armazena" frio. Portanto, no dia mais curto do ano, ainda há algum calor armazenado na atmosfera, e essa reserva de calor mingua ainda por mais ou menos um mês e meio, antes de voltar a aumentar. Por isso, o ápice do inverno, no hemisfério norte, é o dia 2 de fevereiro, e não 21 de dezembro.

Os celtas realmente enxergavam relações entre esse ápice do inverno e a lactação. Basta olharmos para as possíveis origens do termo "Imbolc". Duas expressões do irlandês arcaico podem ter dado origem a essa palavra . A primeira seria "I mbolg", que significa "na barriga", no caso a barriga das ovelhas, já que nessa época era comum que os primeiros desses animais parissem. Já a segunda expressão, "Oimelc" significa "leite de ovelha". No entanto, há uma terceira expressão que pode ter dado origem ao termo "Imbolc", que seria "Imb-fholc", que, também no irlandês arcaico, significa "limpar, lavar". Confuso? Talvez, mas Imbolc acabou por se tornar tanto um festival da celebração do leite quanto das limpezas rituais, principalmente através das velas.
As limpezas rituais, nesse caso, podem ser explicadas de diversas formas. Primeiro que, durante o inverno, fica-se muito mais tempo dentro de casa, o que acabava por "estagnar a energia" dos moradores. E já comentamos o efeito depressivo que o inverno tinha nas pessoas. Podemos, aqui, encarar o Imbolc como uma continuidade de Yule, também com uma marcante celebração do fogo, na forma da deusa Brigit.

O fato de nós, da Comunidade do Sagrado Selvagem, falarmos sobre Brigit não quer dizer, de maneira alguma, que estejamos estimulando você a trabalhar magicamente com ela ou qualquer outra divindade de nome próprio e panteão específico (como Jeová, Zeus, Gaia, Tupã, Freya, Lakshimi, etc). Não estimulamos ninguém a invocá-los, cultuá-los, fazer-lhes pedidos e/ou oferendas. A única prática que consideramos segura é olhar para esses deuses de nomes próprios como fonte de inspiração apenas. E é nesse sentido que vamos falar das celebrações de Brigit que aconteciam no Imbolc.
Brigit era uma das mais veneradas deusas tríplices da Grã-Bretanha, senhora das chamas e de três aspectos do fogo: o fogo que inspirava os poetas, bardos e músicos ao redor das fogueiras; o fogo das fornalhas na metalurgia; e o fogo usado nas práticas de cura, tanto no cozimento das poções, quanto na cauterização das feridas mais sérias, quanto na purificação mágica de pessoas e lugares. Por esse último aspecto, Brigit também era considerada senhora das fontes curativas e nascentes.
Havia, no Imbolc, várias tradições ligadas a essa deusa, mas vamos citar apenas a tradição que envolvia tecer. Por quê? Porque tecer tem tudo a ver com o alimentar novos começos, que têm tudo a ver com o leite. E essa progressão do pouco para o muito tem tudo a ver com a transição definitiva do frio do inverno para o calor da primavera.
Linhas e fios de palha são coisinhas flexíveis e frágeis, por isso, simbolicamente, podem representar o elemento água, ou no caso de Imbolc, o leite. E da mesma forma que o leite, no corpo de um bebê, vai se tornar ossos e carne (ou seja, elemento Terra, materializado, concretizado e forte), fios tecidos representam a transformação do que parecia pouco e impalpável (no caso, o tênue calor do sol) em algo formidável e poderoso (como a primavera e o verão).
No fundo, cada um de nossos sonhos e projetos precisam passar pelo mesmo processo. Quer ter uma vida mais saudável? Comece fazendo só um pouco de exercício, mas todos os dias, e só quando seu corpo se acostumar, aumente o tempo e/ou intensidade do exercício. Quer começar uma nova empresa? Pesquise sobre o mercado um pouco todo dia, acalente a ideia da empresa, vá conversando com um possível colaborador aqui e ali, comece a guardar as moedinhas aparentemente insignificantes. Na verdade, para realizar qualquer sonho ou projeto, para crescer em qualquer área de nossas vidas, precisamos nos alimentar, de um jeito ou de outro com os três atributos do fogo que atribuíam a Brigit. Vamos precisar da inspiração dos poetas e músicos ao redor da fogueira, para imaginarmos, sonharmos, cantarmos e dançarmos o que temos e o que poderemos ter. Vamos precisar da engenhosidade e da persistência de quem trabalha na forja, vamos precisar o vigiar e controlar das transformações eque qualquer curandeira precisa enquanto cozinha uma poção ou cauteriza uma ferida.
E é por isso que, além de fortalecer a proteção pessoal e a saúde, tecer uma cruz ou olho de Brigit (como no vídeo abaixo) enquanto saboreia uma caneca de leite morno é uma boa forma de celebrar o Imbolc e, de quebra, dar uma força para seus sonhos se concretizarem. Isso, é claro, se você mentalizar o crescimento e materialização do seu sonho enquanto tece e bebe.
Observação 1 – Prefira leite branco e morno ou à temperatura ambiente, para lembrar realmente o leite materno. Chocolate ou morango, embora saborosos, podem desviar teus sentimentos da simbologia que o momento pede. Já leite fervido com canela e açúcar pode funcionar bem para a maioria das pessoas, já que canela é uma erva do fogo e da inspiração.
Observação 2 - Os antigos celtas queimavam, no Imbolc, os olhos e cruzes de Brigit que tinham tecido no Imbolc passado. Essa também é uma boa ideia nos dias de hoje, se você tiver feito os mesmos no ano passado.
Lughnasadh - Grãos e pão
Então: em 1 de agosto os mesmos celtas celebravam o Lughnasadh, o festival dos grãos e do pão, que é o festival comemorado em 2 de fevereiro (ou 1 de fevereiro) se você prefere celebrar a roda do Ano Celta a partirdas estações do nosso hemisfério sul. Entre os wiccanianos brasileiros, este festival é mais conhecido como como Lammas, mas no Reino Unido esse nome é associado a uma versão cristianizada desta celebração.
Mas vamos ao que realmente interessa: obviamente, a situação da natureza, nessa data, era o inverso da situação de Imbolc. Esse festival também acontecia mais ou menos um mês e meio após o solstício de verão, em 21 de junho, o dia mais longo do ano, que pelo atraso do aquecimento e resfriamento da atmosfera, resultava no calor máximo por volta de 1 de agosto, ápice do verão.
E reforçando nossa crença de que as rodas do norte e do sul acontecem simultaneamente para todes nós, sempre um delas mais no nosso consciente e outra no inconsciente, adivinhe qual tipo de deidade era celebrada no Lughnasadh? Isso mesmo, uma divindade do fogo, mas no caso, uma divindade que representava o calor do sol, que trazia vitalidade aos grãos e protegia os mesmos das pragas, grãos que estariam prontos para a colheita exatamente nesta época. A divindade, no caso era Lugh, um atlético deus do Sol que, que segundo as lendas, nessa época, desafiava e vencia um ser que representava a praga nos grãos. Outras versões da lenda diziam que o inimigo era uma divindade que queria guardar os grãos apenas para si, impedindo a humanidade de usá-los.

Qualquer semelhança e diferença com Imbolc não é mera coincidência. Assim como linhas, grãos, sozinhos, também parecem muito pouco. Eles são ao mesmo tempo o resultado de trabalho duro, no campo, e até o resultado do esforço da planta, a razão da sua existência, mas também carregam em si o potencial do reinício e da manutenção da vida. Seja sacrificando os grãos, que devem ser moídos para a fabricação dos pães e bolos, seja preservando os grãos para o plantio no momento certo, o que também é um sacrifício, já que envolve enterrar os grãos, fazendo-os morrer antes de novas vidas nascerem. De um jeito ou de outro, grãos também são coisas muito pequenas e frágeis, mas que carregam um enorme potencial para a humanidade.
Leite e grãos são ambos elementos aparentemente pequenos ou até impalpáveis, mas que podem ser transformados em muito, muito mais. A diferença está apenas no momento em que esse processo chega. Em Imbolc, temos a mãe que oferece parte de si para que seu filho cresço, o que não deixa de ser um sacrifício. Já em Lughnasadh, somos nós, os filhos, já adultos, que sacrificamos o resultado de nosso trabalho e esforço, ou seja parte de nós mesmos, para que a vida continue e para que novas vidas e novos projetos surjam.

Entre os grãos e o pão, temos duas sabedorias importantes. Na primeira sabedoria, de um lado, temos a avareza, o apego excessivo àquilo que conquistamos, que abre o risco de que aquilo fique velho demais a ponto de não servir como base para a criação ou sustentação de mais nada. Do outro, temos a possibilidade de gastar excessivamente o que conquistamos, moer todos os grãos que colhemos e, na época do plantio do ciclo seguinte, não termos mais sementes para plantar. Equilibrar esses dois extremos acaba sendo o segredo dessa sabedoria. É a mesma sabedoria de não colocar lenha demais na fogueira. Além de talvez abafar as chamas, você também pode ficar sem lenha.
Já a segunda sabedoria é o mistério espiritual do pão. O pão nasce a partir do sacrifício, é uma espécie de materialização da energia do sol em nossas vidas, e portanto, comendo o pão, é como se estivéssemos comendo a carne do Deus Sol, ou do princípio Masculino do Cosmo, ou de nossas individualidades. O pão combina o pó dos grãos, que representam uma porção do elemento Terra, mais uma porção do elemento Água, que é a representação da fluidez e adaptabilidade da Deusa, mais os gazes da fermentação, que são a representação do elemento Ar, mais o elemento Fogo, que transforma o cru em assado, entre outras tantas transformações no nosso dia a dia. É por isso que pão é elemento Espírito, e sempre que o fabricamos, partimos, partilhamos, guardamos e comemos, podemos estar celebrando o Lughnasadh.

