Rituais · Roda do Ano — 21 de setembro de 2019
Equinócios - entre flores e frutos

Uma grande amiga minha, a jornalista Ana Paula Leitão (que aliás tem um trabalho maravilhoso com o Mulheres que Uivam, recomendo mesmo) me pediu sugestões para celebrar o início da primavera. Da última vez que ela fez isso, foi no solstício de inverno (aqui em Brasília, no hemisfério norte era do verão). Expliquei sobre o Sabat Litha da roda do norte e tal. A moça adorou as sugestões mas acabou, instintivamente, misturando com Yule, que é o equivalente na roda do sul.
E sinceramente? Não há nada de mal nisso. Há plantas que florescem na primavera do hemisfério sul (como o Ipê) e outras que mesmo estando no hemisfério sul florescem na primavera do hemisfério norte (como o Jacarandá de Espinho). E da mesma forma que parte da natureza está sempre ao mesmo tempo funcionando nos dois hemisférios, acredito que nós, humanos, também estamos sempre girando ao mesmo tempo pela roda do norte e pela roda do sul. Tipo meu consciente agora vivendo o início da primavera do sul, mas também diferentes partes do meu subconsciente vivendo o outono do norte.
Então: tanto no hemisfério norte quanto no sul, teremos os equinócios na madrugada desse domingo dia 21 para segunda dia 22 de setembro. Lá o de outono, aqui o de primavera, cada qual marcando o início de sua respectiva estação. Os celtas, povo extremamente pagão e ligado à Mãe-Terra, tinham nos equinócios os sabats Ostara (de primavera) e Mabon (de outono).
Ostara e a beleza das flores
O sabat Ostara acabou influenciando, via sincretismo, a Páscoa cristã. Afinal coelhinho e ovos coloridos têm tudo a ver com a primavera, mas não com o Cristo crucificado, nem com os judeus escapando do Egito.
Na perspectiva dos celtas (que viviam no Hemisfério norte), a neve do inverno era substituída pelas flores da primavera nessa época. E depois de tempos de fome, muito frio e uma natureza "depressiva", o calor, o bem estar, o prazer, a fertilidade e a beleza e a sensualidade explodiam no mundo. Pensando na Terra como o símbolo do Feminino e no Sol como símbolo do masculino, essa era a época em que ambos estavam adolescentes e se apaixonavam. E querem algo mais animador, sensual e bonito que o começo de um namoro?
Por isso o coelho era um símbolo muito presente nessa época, bichinho absolutamente belo, fértil e saltador-entre-flores, (e por vezes almoço mais que bem vinda depois de meses de fome). As aves voltavam a por ovos, símbolo dos novos começos, e alimento também muito bem vindo. Assim, como forma de animar parentes e amigos após um inverno difícil, era comum as pessoas se presentearem com ovos coloridos à mão (como se os estivem enfeitando com flores, ou como se fossem flores).
Um ritual muito apropriado de Equinócio de Primavera (independente de qual hemisfério você está) seria cozinhar ovos e pintá-los que cores e símbolos que representem seus desejos para os próximos 365 dias. E é claro, comê-los!!! Essa é a data de celebrar a beleza, portanto é também o dia de dar aquele trato no rosto, no cabelo, nas roupas, no perfume, na maquiagem. Além de pintar os símbolos nos ovos, vale também a pena pintar em si mesm@. Ou até escrever seus desejos de beleza e exuberância na sua vida. O lema é enfeitar, pois é isso que a natureza faz com o desabrochar de cada flor.
Mabon e o deleite dos frutos
Mabon, sabat do equinócio do outono, acabou não influenciando diretamente o calendário cristão. Claro que cada vez que se faz um festival do morango, da uva, da melancia ou do que mais uma região produza, está se celebrando Mabon.
Quando falamos em colher frutos, com frequência estamos falando do resultado do nosso trabalho, dos nossos esforços. Ou seja, é época de descansar, relaxar, aproveitar e celebrar aquilo que você conquistou até aqui. Claro, nem tudo foi conquistado. Boa parte dos frutos que comemos e dos frutos em nossas vidas vêm ao acaso, de graça. E não, não é porque estamos relaxando e descansando que o trabalho acabou. Dentro de cada fruto está a semente do que plantaremos amanhã. Ou, na verdade, daqui alguns meses, porque o inverno, com seu frio, depressão e fome, virá logo em seguida, e só depois que o atravessarmos, plantaremos nossos sonhos novamente. Aliás, é justamente para atravessar o inverno que é a época de nos deleitarmos, para repor nossas forças e ânimo e termos forças para as vacas magras. É a época de preparar o vinho, que será fundamental nas épocas mais difíceis do inverno.
O ritual ideal de Mabon seria preparar um chá bem concentrado com frutas e ervas cujo aroma você aprecie ou que representem as conquistas que você quer carregar e cultivar nos próximos meses. Depois o ideal seria colocar esse superchá numa banheira (ou ofurô) e tomar um banho bem gostoso enquanto saboreia as frutas, o vinho e celebra os frutos que você colheu ou ganhou. Claro, na falta de um ofurô, vale perfeitamente só fazer o chá, colocá-lo num balde, misturá-lo com água fria no chuveiro e, após o banho de sabonete, despejar canecadas no corpo. Mas não é só despejar: é despejar sorvendo o máximo de prazer da experiência, de preferência visualizando que suas conquistas estão se impregnando na sua pele como ânimo para quando você precisar. E depois vá comer as frutas e o vinho, também com as mesmas intenções e visualizações.
