Rituais · Roda do Ano — 20 de dezembro de 2019

Solstícios - Entre chamas e pinheiros

Na madrugada deste sábado para domingo, mais precisamente às 01:19 da manhã, acontecerão o Solstício de Verão aqui no Hemisfério Sul e o de Inverno no Norte. No Brasil, esses marcos astronômicos são a origem tanto das Festas Juninas quanto do Natal. E é sobre os significados mágicos dessas duas festividades que vamos falar aqui.

Enganos comuns

Ao contrário do que muita gente pensa, os Solstícios não marcam o ápice de suas respectivas estações. Eles marcam apenas o começo. Sim, o Solstício é o dia mais longo ou mais curto do ano, mas a atmosfera demora várias semanas para ser realmente aquecida ou resfriada. E é por isso que as temperaturas mais altas ou mais baixas acontecem várias semanas após os mesmos.

Também é comum pensar que os solstícios acontecem sempre no dia 21 de junho ou de dezembro. Solstícios são momentos exatos de cada ano, com precisão possível em minutos, segundos e até frações de segundo. Esses momentos variam de ano para ano. Por exemplo: esse ano, o Solstício de Verão do Hemisfério Sul acontecerá dia 22/12 às 01:19 no horário de Brasília. Já em em 2024, acontecerá no dia 21/12, mas às 06:21.

"Então em 2024 o Solstício de Dezembro deverá ser celebrado de manhã?" Não mesmo. Em religião e magia, vale o que cada pessoa sente como o que funciona melhor. E para a maioria das pessoas, magia, celebrações e rituais funcionam melhor à noite. O que se faz, na prática, é eleger a noite mais próxima, seja antes ou depois da data, come espaço inclusive para a conveniência do grupo. Nada contra você, esse ano, só celebrar o Solstício na segunda ou terça-feira.

Solstício de Inverno: Yule

Entre os celtas, o Solstício de Inverno era chamado de Yule. E como a partir desse momento os dias voltavam a ficar mais longos, eles acreditavam que, simbolicamente (ou não tão simbolicamente assim) o Deus Sol renascia nessa data, e que continuaria como um bebê até o equinócio seguinte. O nascimento do Cristo? Ele nem tinha nascido nessa época, nem Roma existia, então o cristianismo nem sonhava em existir na Europa. Já outros deuses, de vários outros panteões, frequentemente nasciam no Solstício de Inverno. Justamente por essa mesma simbologia que os celtas enxergavam.

Na prática, Yule era uma celebração para combater a depressão que tão comumente assolava as pessoas no inverno. E boa parte dessa celebração foi adaptada ao Natal Cristão, no tão falado sincretismo religioso, quando os romanos colonizaram os povos celtas.

Imagine, por vários meses, só enxergar o sol (e geralmente coberto por nuvens) entre 9 da manhã e 15 horas. castelmezzano-1979546_1920Com muito, muito frio, e comida muito racionada. Gente doente pra todo lado (sim, de gripe, pneumonia, etc). O inverno era uma época em que a morte se tornava muito mais próxima dos seres humanos. A vida parecia sumir da face da terra, com a grande maioria das árvores sem nenhuma folha, e só a neve branca cobrindo tudo com sua monotonia. Ou melhor: quase tudo. Porque o pinheiro, mesmo no mais frio dos invernos, continua majestosamente verde. O pinheiro funciona como a lembrança de que, por mais que a vida pareça morta e gelada, ela continuará e voltará a vicejar. Por isso, o pinheiro era o símbolo da esperança na vida. E por isso o verde é a cor da esperança.

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O fogo, com seu laranja, dourado e vermelho, também eram importantes elementos para combater a depressão nessa época do ano. Eram a lembrança do calor da primavera e do verão, da cor retornando aos rostos dos entes queridos, do sol mais presente no dia-a-dia, até da caça mais abundante. E era por isso que as cores verde, vermelho e amarelo eram as principais cores de Yule. E ainda são as principais cores do natal.

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Uma vez assisti a sempre formidável Elke Maravilha explicar o significado do Papai Noel. Veja bem: não estou muito preocupado com as fontes históricas dela. Apenas considero a explicação muito plausível, principalmente magicamente. No inverno, não eram só as doenças, a depressão e a fome que aproximavam os seres humanos da morte. Animais selvagens também passavam a atacar humanos com mais frequência, devido justamente à escassez de comida. Dessas feras, a mais assustadora, sem dúvida, era o urso polar, que ao contrário dos demais ursos, não hiberna. Era por isso que, nessa época, um caçador que se sentisse capaz mataria um urso polar (ou morreria tentando). Ele então tiraria a pele do urso e a vestiria "do avesso", ou seja, com os pelos voltados para dentro. Isso seria uma forma ritualística de inverter o medo provocado pelo urso. O caçador (ou caçadora, sabe-se lá) mostraria para toda a aldeia que mesmo sob o branco mortífero e funesto da pele do urso, a vida ainda abundava em vermelho. Ele arrancaria das profundezas da memória a vida fervilhante e exorcizaria, para as profundezas da memória, o branco da desesperança gelada e monótona. E os pais definitivamente não se importavam em suas crianças se sentarem no colo ensanguentado desse caçador. Elas estariam assim sendo imbuídas com a própria essência, coragem e ferocidade do finado urso.

E havia a questão dos presentes. Era comum nessa época o give-away (passar pra frente), que nada mais era do que passar para um ente querido algo que não lhe serviria mais mas que ainda poderia melhorar muito a vida de quem o recebia. Isso nada mais era do que imbuir o quotidiano de nova vida, uma forma de reciclar os objetos (e com eles as alegrias que os mesmos, e a vida, nos dão).

Solstício de Verão: Litha

Se em Yule o Deus Sol ganhava vida nova (ou seja, nascia), no Solstício de Verão, no dia mais longo do ano, o Sol estava no máximo de sua vitalidade. E compartilhava essa vida com a Deusa Terra, através do orgasmo. Sim! Os celtas consideravam que o Solstício de Inverno era o orgasmo do Deus Sol. E não tinham nenhuma vergonha ou prurido em celebrar isso.

3964455938_acb7418b75_k De https://www.flickr.com/photos/quinndombrowski/3964455938/

Nessa noite faziam as fogueiras mais altas, cantavam as músicas mais agitadas, dançavam (e transavam) até a exaustão. Litha era a celebração máxima da vida, do prazer de estar vivo, do poder e potencial de estar vivo. Gozar o máximo da vida era a fonte da nova vida, e eles sabiam muito bem disso. Sem os prazeres, mais ou menos intensos de nossas vidas, restam apenas as dores e tristezas, o que transforma a vida em tortura (e invariavelmente leva à depressão). Por isso, quando a vida dava aos celtas (através do verão) a chance de alcançar o máximo do prazer, eles o faziam, até como forma de lembrar, no outro solstício, que a vida ainda valia a pena ser vivida.

Solstícios hoje

Há xamanisas, bruxas e wiccanianas que preferem celebrar, em dezembro, o Solstício de Verão. Mas convenhamos, mesmo para elas é difícil escapar da magia do Natal. Da mesma forma, em junho, é difícil escapar das festas juninas. A parte europeia de nossa cultura, de nosso calendário, continuam aí. E girar contra isso nem sempre é producente. Como já disse antes, se os Solstícios acontecem ao mesmo tempo no norte e no sul, eles também acontecem ao mesmo tempo no nosso consciente e no nosso subconsciente. Se estamos chegando cansados ao final do ano, desesperançados até, podemos buscar em nosso interior a energia fervilhante de junho, que mesmo que não prestemos atenção, continua lá. Da mesma forma, se estamos na euforia de junho, se prestarmos a devida atenção, poderemos perceber que precisamos tomar cuidado para não disfarçar sintomas de depressão, ou esquecermos de cuidar de nossas esperanças e fragilidades.

Não vou, nesse post, dizer como comemorar seu Yule/Litha ou Litha/Yule. As celebrações que citei aqui acabam sendo exemplos mais que suficientes (tá, basta se vestir de papai noel, não vá matar nenhum animal pra isso, ok?). O importante é celebrar a esperança e o prazer de viver.