Aprendizado · Rituais · Roda do Ano · Sacerdócio — 29 de outubro de 2022
O tal do Deus de Chifres

Em média, qualquer brasileiro que ouvir falar em um Deus de Chifres vai pensar em satanismo. Não, nós, do Sagrado Selvagem, não somos satanistas, mas gostamos da simbologia celta do Deus de Chifres. E nela, ele não tem nada a ver com o diabo. O Deus de Chifres não tem nada de maligno. Na verdade, tem mais a ver com o Jesus dos cristãos, já que se sacrifica para nos salvar.
Vou reproduzir aqui o que me foi contado sobre isso. Estamos falando de tradição oral na época da internet. Sim, existem coisas que as pessoas escolheram não registrar de forma escrita, principalmente se ouviram de pessoas mais velhas. Quem me contou certamente ouviu de outra pessoa, que possivelmente leu alguma coisa nas últimas décadas (mas não referenciou ao ouvinte), a partir de algo que alguém ouviu em sua família ou de amigos… e segue a história. O fato é que, pra mim, essa história faz sentido. E não estou preocupado com a precisão histórica disso, e sim com as simbologias que ela traz para minha prática mágica e xamânica. Chame de fé, se quiser. Sim, é possível que este seja um mito que romantiza as vivências de tribos pré-históricas. Mas as simbologias que enxergo nesse mito me ajudam a viver minhas emoções de maneira mais saudável e harmoniosa. E por enquanto isso é suficiente pra mim. Meu objetivo aqui não é convencer ninguém de que os celtas tinham esses rituais e mitos, muito menos que minha interpretação do Deus de Chifres é a única verdadeira. É compartilhar simbologias que considero úteis em minha vida, simbologias que podem ou não ser úteis para você.
A origem
Contam que na pré-história, na Europa, antes da agricultura, no ápice do Outono (que futuramente seria "convencionado" como 31 de outubro), antes das primeiras nevascas, os humanos tinham um ritual de preparação para o inverno. E aqui há dois fatos importantes a serem lembrados. Primeiro, que essas tribos, sem agricultura, se alimentavam apenas de extrativismo vegetal e caça. Segundo, que essas tribos acreditavam que humanos e animais, enquanto filhos da Deusa (ou da Mãe Natureza, se você preferir), eram irmãos. E que, portanto, quando a neve cobrisse tudo, mesmo havendo pouca comida, os humanos só seriam autorizados a matar animais se a Deusa assim permitisse. O que, com certeza, tinha a ver com evitar a extinção das espécies da região. Por isso havia esse ritual de preparação para o inverno, justamente para saber se a Deusa permitiria ou não que caçadas acontecessem.
Em que consistia o ritual?
A xamã ou o xamã da aldeia elegia o mais poderoso animal não caçador da região. Em termos de espécie, geralmente era o cervo, mas dependendo da região, era o alce. Mas essa escolha não apenas uma escolha da espécie, mas também do representante daquela espécie. O animal escolhido era o mais forte, o maior e, geralmente, o com os maiores chifres. Se fosse na Escócia, por exemplo, estaríamos falando de um cervo vermelho do porte de um cavalo, só que com chifres de mais de um metro de comprimento, com múltiplas pontas afiadas. Já nas regiões mais geladas, teríamos um alce de dois metros de altura, com chifres também de dois metros. Esse animal seria o representante dos animais "caçáveis", por assim dizer, ou "o "gamo rei dos animais". Já os humanos seriam representados por alguém que se voluntariasse (geralmente homens cis, mas eu realmente acredito que pelo menos algumas vezes eram homens trans, ou mesmo mulheres cis), que seria o "gamo rei dos humanos". A ou o xamã vestiria esse voluntário ou voluntária com os chifres e o couro de um animal da mesma espécie que o gamo rei dos animais e, ao fazê-lo, conectaria as almas do gamo rei dos humanos e do gamo rei dos animais.

Como essa conexão funcionava e por que ela era feita?
Dentro do que acreditamos no Sagrado Selvagem (que todos somos avatares da Deusa e que, portanto, nossos subconscientes têm conexão telepática com todos os seres do multiverso), essa conexão seria um estado alterado de consciência, um transe no qual o gamo rei dos humanos abriria sua percepção para os sentimentos do gamo rei dos animais. A mesma conexão também facilitaria que o gamo rei dos animais captasse pensamentos e sentimentos do gamo rei dos humanos. Quanto mais humanos fossem os pensamentos do gamo rei dos humanos, maior seria possibilidade de o gamo rei dos animais perceber a conexão, e também maior seria a possibilidade de o gamo rei dos humanos ter uma energia mais humana e ser reconhecido, pelos animais ao redor, como um humano. A conexão, então, funcionaria como um disfarce, alimentada pela empatia do gamo rei dos humanos, por sua disposição em se manter pensando em si mesmo como sendo um só com o gamo rei dos animais.
A grande questão era que esse era um ritual de caça. Se o gamo rei dos humanos conseguisse, sozinho, matar o gamo rei dos animais, então, naquele ano, os humanos estariam autorizados a caçar animais. Mas se o gamo rei dos humanos não conseguisse tal façanha (geralmente morto pelos chifres e cascos do gamo rei dos animais), os humanos, naquele ano, só estariam autorizados a comer o que restasse do gamo rei dos humanos. E assim, teriam que sobreviver ao inverno apenas com o pouco alimento vegetal que conseguissem desenterrar na neve.
Simbologias

Nós, do Sagrado Selvagem, acreditamos que o ritual do gamo rei marcou profundamente os povos celtas, e provavelmente outros povos também. Com o tempo, isso criou o arquétipo do Caçador Chifrudo, que com os milênios foi alçado a Deus de Chifres, uma espécie de soma de todos os gamos reis humanos e animais que já existiram. E como trabalhamos com simbologias, vamos explorar alguns símbolos dessa história.
Apenas mamíferos herbívoros (mais precisamente, os que pastam) têm chifres verdadeiros (ou seja, nascidos de estruturas que não eram originalmente dentes ou garras). Nesses animais, chifres são, majoritariamente, armas de defesa. Ao contrário de dentes e garras, para um animal que nasce com chifres, usá-los como arma de caça é muito difícil, se não impossível. Por outro lado, defender-se com chifres é muito fácil. Por isso, o Deus de Chifres é um símbolo da proteção. E proteção tem tudo a ver com individualidade, porque sem ela não há o que ser protegido. O Deus de Chifres é ao mesmo tempo o couro que protege o interior do corpo do exterior, como também é o chifre que perfura essa pele. Na verdade, tudo que perfura, tudo que penetra, está ligado ao Deus de Chifres: dentes, garras, lanças, pênis. O Deus de Chifres ergue as individualidades, mas também dança entre elas. Até pela descrição da conexão entre o gamo rei dos humanos e o gamo rei dos animais, vemos essa dança acontecendo. Fora isso, o Deus de Chifres também é o pênis, por isso é um símbolo das masculinidades, das emissões de energia do universo, da sabedoria de penetrar sem machucar.
Finalmente, o Deus de Chifres é um dos principais portais para os instintos selvagens em nossas mentes, com o que não foi domado, a própria mistura entre civilizado e animal. Ele é o primeiro filho da Deusa, a ilusão de que não somos Ela, de que passado, presente e futuro são separados, de que nosso consciente se separa do subconsciente. Se a Deusa é o espaço em que tudo navega e que a tudo engloba e que a tudo une, o Deus de Chifres é o tempo, a primeira separação cósmica. Mas Ele, apesar de importante, também é dispensável, é a parte que pode morrer sem que o todo desapareça. O Deus de Chifres é se sacrificar, é doar um pedaço de si para que aqueles que amamos possam continuar vivos. É reconhecer que existem partes mais importantes de nós mesmes que nossas próprias individualidades.
No fim das contas, a única semelhança com o diabo são os chifres. Mas qualquer semelhança do Deus de Chifres com o Cristo dos monoteístas pode não ser mera coincidência. É, muito provavelmente, evidência de que os dois personagens beberam da mesma fonte, ou seja: de vivências humanas semelhantes.
