Aprendizado · Feitiços · Rituais — 27 de dezembro de 2020

Beabá da Magia

Quem nunca ouviu falar em magia? E em simpatias? Feitiços? Rituais? Da mais carola ao mais cético, todo mundo sabe pelo menos uma simpatia. Já os feitiços despertam mais medo, pois parecem mais ligados à bruxaria (e a toda a campanha difamatória do cristianismo contra as curandeiras europeias). Por outro lado, todes já participaram de algum ritual, e por várias vezes a palavra está associada a um excesso de cerimonialismo. Na prática, essas são as três palavras mais usadas para falar em magia. E é sobre isso que vamos falar neste texto.

Magia, feitiços, simpatias e rituais

Embora essas quatro palavras sejam usadas, por outros grupos, em contextos diferentes com intenções diferentes, para nós do Sagrado Selvagem, elas significam a mesma coisa. De qualquer forma, vale a pena uma explicação rápida da origem e uso de cada uma.

Magia, pra quem não sabe, é qualquer tentativa de usar a energia da fé (e/ou dos pensamentos e/ou sentimentos) para mudar a realidade. Então, torcer para a bola entrar no gol é magia. Rezar o pai nosso? É magia. Acender uma vela é magia, pendurar uma ferradura acima da porta é magia. Soprar as velinhas do bolo de aniversário? Cantar parabéns? Desejar feliz ano novo? Tudo magia!

Feitiço vem do termo latino facticius ("artificial, não-natural"). Na prática, qualquer ato de magia é um feitiço, já que é uma tentativa de mudar a mãe-natureza ou a realidade. Por exemplo, ajoelhar-se para rezar em frente a um crucifixo poderia ser classificado como um feitiço (uma tentativa de mudar a realidade). Uma diferença entre um feitiço e a magia "pura" é que o feitiço usa atos físicos (falar, mover, piscar, cantar, construir, comer, etc) como forma de direcionar melhor as energias da fé, do pensamento e das emoções.

Simpatias e rituais também são feitiços, porque ambos são atos mágicos. No entanto, certos praticantes de magia consideram que “feitiço” se aplica a formas mais “baixas” ou “primitivas” de magia. Em geral, eles preferem usar o termo “ritual” para seus atos mágicos. Ao mesmo tempo, “simpatia” é muito mais facilmente aceito como algo “do bem” do que “feitiço”. Isso porque, provavelmente, o termo simpatia surgiu como uma forma de “burlar” a Inquisição católica.

Simpatias são a segunda forma mais antiga de magia (a primeira é a velha e tradicional "torcida", quando acontece sem qualquer ação física). Elas têm esse nome porque são práticas baseadas na semelhança entre as coisas, ou na interligação entre essas coisas. Ou seja, nas simpatias, mudamos alguma coisa no mundo físico por acreditarmos que essas coisas estão ligadas ou podem se ligar àquilo que de fato queremos mudar. Sim, simpatias também são uma forma de fazer torcida. Só que no lugar de torcer roendo as unhas, você grita o nome do seu time. Afinal, se você falar com força o nome dele, fica mais fácil acreditar que ele se tornará forte.

A rigor, todos os atos mágicos que nós, da Comunidade do Sagrado Selvagem, praticamos, podem ser considerados simpatias, pois preferimos trabalhar mais com as semelhanças que com as diferenças entre as coisas. Simpatias podem ser mais simples (como a do parágrafo anterior, que mistura a sua energia à do seu time) ou mais complexas, com várias energias envolvidas. Existe, por exemplo, a simpatia de enterrar o cordão umbilical de uma menina no pé de uma roseira. É uma simpatia que explora a conexão das energias da criança e do cordão umbilical, da terra com a roseira, da roseira com o cordão umbilical e da criança com a roseira.

Uma simpatia, ou feitiço, que seja mais elaborado, envolvendo mais tempo de execução e mais elementos, é o que chamamos de ritual. Uma formatura na universidade não deixa de ser um ritual, mesmo que a maioria dos presentes acredite apenas no valor simbólico da cerimônia. O mesmo vale para casamentos, batizados, ceias de natal, festas de aniversário e etc.

Magia funciona?

Não existe resposta definitiva para essa pergunta, por um motivo simples: simpatias, como qualquer forma de magia, se baseiam em fé, pensamentos e sentimentos. São três coisas impossíveis de medir, comparar, ou mesmo afirmar se existem. Cada pessoa saberá, e qual a profundidade dela.

Além disso, fé, pensamento e emoções são extremamente variáveis. Dependem do que a pessoa está vivendo, do quão cansada está, com o que está preocupada, o que ouviu das pessoas ao redor, etc. Na prática, cada pessoa é que tentará canalizar sua fé, pensamentos e emoções para que algo aconteça e, de acordo com os resultados, decidir se acredita ou não.

A explicação para que magia e simpatias funcionem também vai variar de acordo com a pessoa, principalmente de acordo com a religião. Ateus podem dizer que simpatias são apenas forma de autossugestão, uma forma de auto hipnose para que, mesmo sem prestar atenção, a gente alcance o que deseja.

Índios podem acreditar que os espíritos e/ou energias da natureza são afetados quando interagimos com a natureza, e que em seguida esses espíritos ou energias nos afetam. Católicos podem acreditar que acender uma vela é uma forma de pedir, simbolicamente, que Deus derrame mais luz sobre determinado assunto ou pessoa. Evangélicos podem acreditar que colocar a foto de alguém na bíblia faz com que sempre que o dono da bíblia veja a foto, lembre-se que fez isso para ajudar a pessoa. Com isso, automaticamente, a cada vez que o evangélico ver a foto, ele estará, mesmo sem perceber, pedindo que Deus ajude aquela pessoa.

A Magia do Sagrado Selvagem

Agora chegou a hora de explicar porque nós, da Comunidade Neo-Xamânica do Sagrado Selvagem, acreditamos que magia funciona.

Nós acreditamos que a magia funciona porque acreditamos que tudo que existiu, existe, ou vai existir é uma face (ou alter ego) do que nós chamamos de “A Deusa”. De maneira BEEEEM resumida, a Deusa é a própria existência, ou a Vida (como quando alguém diz “a vida me trouxe muitas oportunidades”), ou o multiverso, ou a Mãe-Natureza (que não deixa de incluir tudo que é artificial também). Em seu estado mais puro, a Deusa não tem qualquer separação dentro de si mesma. Para Ela, passado, presente e futuro são a mesmíssima coisa. Para Ela, 1+1 é, ao mesmo tempo, 0, 1, 2, 3, 4, 5 e todos os outros números existentes. Ou seja, ela não tem qualquer limitação. A realidade como nossas mentes conscientes registram é nada mais nada menos que um grande sonho cósmico dessa Deusa. E da mesma forma que, dentro do teu sonho, cada personagem é, na verdade, o teu subconsciente fingindo ser uma pessoa diferente, cada ser da nossa realidade é a Deusa fingindo para si mesma que, no lugar de ser ilimitada, ela é limitada. Então você, e a cadeira em que você senta, e a carne que você come, e o floco de neve no anel de Saturno, são, na verdade, o mesmo ser. E um dia, você vai lembrar desse momento sob todos os diferentes pontos de vista de cada um desses seus diferentes “eus”.

Nós acreditamos, então, que a nossa realidade é um mar de pensamentos, fé e emoções. E que, portanto, pensamentos, fé e emoções afetam a realidade, em maior ou menor grau. O detalhe é que acreditamos que a melhor forma de fazer magia é despertar, só um pouquinho, desse sonho cósmico. Na prática, isso seria mergulhar no próprio subconsciente o mais profundamente possível, de forma a sentir-se novamente a Deusa, e não a pessoa limitada que geralmente pensamos que somos. Isso pode parecer megalomaníaco, mas muito pelo contrário, envolve também uma humildade cósmica. Afinal, isso envolve aceitar que a minhoca dentro da terra é tão importante e sagrada quanto você. Envolve desacreditar as hierarquias tanto de superioridade quanto de inferioridade.

Após essa breve explicação, vamos aos elementos que todos os atos de magia apresentam, de um jeito, ou de outro.

Elementos mais comuns na magia

Em qualquer feitiço, simpatia ou ritual, podemos identificar pelo menos quatro elementos: a intenção, a simbologia, o ato mágico e a concentração.

A intenção pode parecer fácil, mas é o mais importante na simpatia, porque vai afetar todos os outros. Assim, a intenção não apenas deve ser escolhida com sabedoria, como também ser escolhida de maneira precisa e pelos motivos certos. O que inclui não desrespeitar o livre-arbítrio alheio. Nas simpatias para outras pessoas você necessariamente vai misturar a sua energia às energias dessas pessoas. Portanto, desrespeitar as decisões e desejos delas provavelmente fará mal a elas, e pela conexão de energias, também fará mal a você.

Também não vale a pena escolher intenções que poderiam ser facilmente resolvidas pelas vias normais. Fazer uma simpatia para algo que você poderia responder apenas com um pouco de trabalho diz à Deusa, a Deus, ao Universo ou ao seu inconsciente que, no fundo, você não tem disposição para aplicar a energia necessária para que algo aconteça. Ou seja, que no fundo você não deseja o suficiente que algo aconteça. Por isso, feitiços, simpatias e rituais feitos com a intenção de evitar tratamentos médicos convencionais estão quase automaticamente fadados ao fracasso.

A simbologia envolve a escolha e compreensão de quais energias estarão representadas e trabalhadas no feitiço, simpatia ou ritual. Mais que simplesmente amarrar uma fita numa árvore, é importante saber e compreender porque tais símbolos foram escolhidos, tanto para escolhermos boas simbologias como para não usarmos simbologias ruins. Por isso, não, você não quer jogar no lixo a maçã que usou na sua simpatia de Ano Novo.

O ato mágico é a transformação que provocaremos nos elementos simbólicos para que as transformações na vida real aconteçam. O ato mágico que escolhermos, qualquer que seja ele, também será um ato simbólico. Portanto deve ser bem pensado, tanto para ter uma simbologia bacana, quanto para não atrapalhar sua concentração durante a simpatia. Você com certeza pode escolher como ato mágico montar um quebra-cabeças usando pipocas como peças, ou trançar seus cabelos. Agora se esse ato vai realmente acessar alguma simbologia útil no seu subconsciente ou se vai lhe ajudar a se concentrar, só o seu subconsciente poderá dizer.

Finalmente, concentração é aquele momento (ou momentos ou gestos) em que sua prioridade vai ser canalizar sua fé, pensamento e sentimento para a intenção da simpatia. É uma espécie de orgasmo. É o soprar da vela do bolo, é o final da contagem regressiva de ano novo, o estourar do champanhe, o erguer o diploma no ar para tirar a foto.

Quem pode fazer magia?

Nós, da Comunidade Neo-Xamânica do Sagrado Selvagem, acreditamos que a magia é um dom que todos os seres têm, e um direito sagrado de todos os seres. A mais sem graça das pedras tem capacidade de fazer magia, se assim o desejar em sua existência quase sem pensamentos. A graminha que você pisa também pode fazer magia, seu pet pode fazer magia, qualquer pessoa pode fazer magia. Se vão sentir necessidade, se vão conseguir fazer direito, com as simbologias mais eficientes, e a concentração de energia necessária, aí já é outra questão.

Claro, algumas pessoas têm mais facilidade e outras têm mais dificuldade. E a imensa maioria não tem o conhecimento e a sabedoria necessários.

Teu caminho na magia

Antes de sair aprendendo a fazer magia, é importante você pensar em algumas coisas importantes.

  • Por que eu quero aprender a fazer magia?
  • Qual estilo de magia quero aprender?
  • Até qual ponto quero aprender magia?

Em breve escreveremos um texto para cada uma dessas perguntas, que estarão disponíveis quando você clicar nas mesmas, acima.

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